Relação entre mídia e suicídio é tema de Debate e Workshop na Uneb

Eventos vão abordar a cobertura jornalística na região e o que a exposição de detalhes desses casos pode provocar.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou, em 2015, que o suicídio mata mais jovens no mundo do que o vírus HIV. Em setembro de 2016, a OMS mostrou que o suicídio é um grave problema de saúde pública, responsável por uma morte a cada 40 segundos. Campanhas de conscientização, como o “Setembro Amarelo", têm o objetivo de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção, a partir da ampla divulgação de informações sobre o tema.

Contudo, as recentes coberturas jornalísticas a respeito de casos de suicídios no Vale do São Francisco revelam a necessidade de debatermos as convenções e os princípios éticos da profissão. Embora o direito à informação e à liberdade de imprensa estejam dentro da ética jornalística, profissionais da comunicação têm como responsabilidade preservar o direito à privacidade, à imagem e à honra das fontes. A divulgação de suicídios é um tema complexo, que necessita de reflexões específicas principalmente sobre o efeito contágio, conhecido como "efeito Werther", que se refere à exposição de detalhes desses casos e suas consequências.

Para discutir esse tema relevante, a coordenação do curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), a Comissão Vida e Saúde da Uneb e o Núcleo de Prevenção de Suicídios do Vale do São Francisco promovem algumas atividades.

No dia 29 de maio, acontece a mesa redonda "Comportamento suicida e suas influências nos meios de comunicação", com a participação da coordenadora do Núcleo de Prevenção de Suicídios do Vale do São Francisco, Deise Fabiane Schmitz, e mediação da professora de comunicação Carla Paiva. Também participam do evento representantes do Ministério Público e da Defensoria Pública. O debate será às 18h30, no Auditório Multimídia da Uneb.

Já no dia 1º de junho, será realizado o Workshop Mídia e Suicídio, com o estudo do Manual da Organizado Mundial de Saúde para profissionais da mídia atuarem na prevenção do suicídio e na cobertura jornalística sobre esses fatos. O evento também acontece no Auditório Multimídia da Uneb, a partir das 18h. As ações são abertas ao público e contam com o apoio do projeto Multiciência - Agência de Notícias da Uneb.


Jogos eletrônicos como facilitadores no ensino de matemática

Uma das brincadeiras ou passatempo favorito de pessoas de qualquer faixa etária são os jogos eletrônicos, que se multiplicam e cativam diferentes grupos. Com as crianças e jovens, essa prática é  frequente. Diante disso, os jogos educativos são a melhor opção para atrair esse público no colegial, unindo diversão e conhecimento. Foi assim que o ensino de matemática na Escola Agostinho Muniz, em Juazeiro – BA se tornou mais atraente e produtivo. Setenta estudantes do 6º e 7º ano participaram de um projeto que resultou na criação de um jogo, o  Minecraft.

Para que a prática fosse possível, o professor de matemática Lemerton Matos e Otavio Tonelotto, monitor e graduando em artes visuais, desenvolveram o projeto multidisciplinar MATECA – Matemática Tecnologia e Artes. As três áreas do conhecimento foram associadas para possibilitar uma explicação mais simples e integrada, uma vez que as atividades sempre foram realizadas em grupo. Como o objetivo era criar o jogo reproduzindo o ambiente escolar, o nome do projeto passou a se chamar “MATECA: construindo a escola onde vivo”.



“Desde o início, percebi que a maioria dos estudantes utilizava muito o aparelho celular, principalmente para jogos, como o Minecraft. Assim, junto com Otávio, aplicamos o projeto em etapas. O resultado foi o jogo com a construção da escola feita por eles”, explica Lemerton.
De acordo com os instrutores, a primeira etapa foi dividir as turmas em dupla. Com o celular, eles puderam fotografar estruturas semelhantes às formas geométricas (planas e espaciais) estudadas em sala de aula. Nesse processo, escreviam sobre suas fotografias para depois socializar a experiência. Posteriormente, fizeram um convite a pedreiros e mestres de obras da comunidade, que deram uma palestra no pátio, aberta a qualquer pessoa da escola. Depois da capacitação, criaram uma planta da escola e a compararam com a planta real do colégio como forma de conferência. A etapa final foi desenvolver o jogo com os dados da escola.



Além de agregar educação e tecnologia, a atividade também possibilitou que os estudantes explorassem o lugar em que frequentam todos os dias, pois, apesar de conhecer e saber onde fica cada área, essa prática induziu a um olhar mais cuidadoso. “O MATECA foi interessante porque na escola não há laboratório de informática, então tivemos que nos voltar para o que tínhamos em mãos: o celular. Esta ação foi importante por perceber que daria para unir arte, fotografia e tecnologia, além de possibilitar uma experimentação do ser humano e o seu local de convívio” relata Otavio, estudante de Artes Visuais da Universidade do Vale do São Franscisco (UNIVASF).

Numa roda de conversa, alguns dos integrantes comentaram sobre os benefícios e as dificuldades enfrentadas. Entre os aprendizados, os relatos foram de que o jogo foi essencial para um melhor aprendizado em geometria. Os estudantes entenderam que o Minecraft não é feito de um quadrado, mas de um cubo – figura tridimensional. Por unanimidade, a parte mais complicada foi a de construção do coreto. Segundo a estudante Andressa Santos, a maioria gostou mais da construção e de conhecer a relação entre grandeza e medida. “Aprendemos a utilizar a trena e a calcular a partir da definição de conversão de medida ensinada pelo professor e através da palestra. Outra coisa interessante foi fazer a medida do espaço com os pés, além de termos a oportunidade de fazer algo diferente durante as aulas,” conta.



Uma curiosidade é que parte dos estudantes nunca teve atividades com jogos antes em outras escolas. Essa é uma observação importante, levando em consideração que muitas escolas ainda mantêm métodos de ensino conservadores. O uso de dispositivos móveis e jogos em sala de aula não têm intenção de dispersar ou banalizar o ensino. “É possível saber qual o meio em que os jovens estão inseridos, qual o tipo de pensamento que têm em relação à tecnologia, ao mundo, ao uso dessas coisas. A partir disso, é possível costurar alguma coisa. Não deixar na mão da criança sem ter uma finalidade, e também não restringir, mas promover o equilíbrio. Percebemos que vários estudantes filavam aula ou não prestavam atenção porque estavam jogando. Então, buscamos incluir o jogo na proposta educacional”, esclarece Otávio.

Além do benefício em sala de aula, a experiência com os jogos gerou a produção de dois artigos escritos por Lemerton e Otavio. O primeiro, intitulado “Fotografia e a aprendizagem de conceitos geométricos na escola básica: uma relação possível”, submetido no I Congresso de Fotografia do Vale do São Francisco, e o segundo, “Matemática, arte e cultura digital na escola básica: uma perspectiva interdisciplinar”, apresentado na “II semana de matemática da Uneb - Senhor do Bonfim”. O objetivo foi contemplar a perspectiva interdisciplinar, fazendo uma avaliação dos resultados.



Para Lemerton, entender as mudanças e acompanhar a evolução das gerações é um desafio para professores da educação básica. Ele considera necessário estabelecer estratégias de ensino que contemplem o desejo delas. “Os professores da graduação estão mais abertos. É tanto que hoje nós temos uma discussão muito mais ampla sobre o papel das tecnologias no ensino. Em nossa proposta dentro da universidade, a gente tenta contemplá-la. É ainda um desafio para professores que já estão em serviço, para quem já que terminou a graduação a mais tempo. Ainda é possível encontrar resistência em utilizar a tecnologia, ou até mesmo em construir projetos dessa natureza, porque o desafio é atrelar a matemática do currículo ao que precisa ser ensinado,” afirma.

Quer saber mais sobre como os jogos eletrônicos podem interagir com o espaço urbano e serem associados à educação? Confira a entrevista do Multiciência com o doutor em comunicação Adolfo Andrade. O pesquisador esclarece como as experiências com games podem ser aplicadas no ensino.

Texto e fotos: Andressa Silva, repórter da Agência MultiCiência – Agência de Notícias do curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia - DCH III.

Violência policial pode indicar discriminação racial


Por Esther Santana

Já passavam das 23horas do dia 28 de março de 2017, quando a equipe de agentes de segurança iniciou uma abordagem policial. Do portão de sua casa, José Rosa, presidente do grupo Afoxé Filhos de Zaze, percebeu que o filho era revistado. Alertou sua esposa sobre o que acontecia e saiu para conversar com o policial: “Senhor, esse é meu filho. Ele mora aqui”.  A resposta foi ríspida. Recebeu a ordem de calar a boca e entrar em casa. Além de ver o filho sendo abordado de forma violenta, armas foram apontadas na direção de sua esposa e sobrinho. “Foram dois tipos de tortura, uma com o meu filho e a outra com a arma apontada para mim”. A violência policial aconteceu no bairro do Kidé, em Juazeiro. Mas não é um caso isolado.

De acordo com os dados da 10ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no ano de 2015, 3.320 pessoas foram vítimas de intervenções policiais. Entre os anos de 2009 e 2015, mais de 17.600 pessoas morreram. No estado da Bahia, as mortes decorrentes de intervenção policial, em serviço e fora de serviço, chegaram a 299 pessoas em 2015. Quando não ocorrem mortes, a violência contra a população, majoritariamente pobre, negra e moradora de bairros periféricos, acontece cotidianamente.



Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2016)

É o que demonstram os testemunhos de vítimas de violência física em decorrência de abordagem policial durante a Audiência Pública da Comissão de Direitos Humanos, da Assembleia Legislativa, realizada na Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro, na última sexta-feira (05/05). Comum a todos os relatos, estão as características das pessoas abordadas: são pobres, negros e moradores de bairros periféricos. Por causa da violência direcionada a esse grupo social praticada por agentes policiais, a prática sistemática desse tipo de abordagem pode ser apontada como indicador do racismo institucionalizado pelas forças de segurança do Estado.

Foto: Ascom - NAC/Uneb


O racismo institucional é o termo utilizado para determinar como a prática sistemática contra pessoas de ancestralidade afro-brasileira está presente nas instituições sociais até chegar a segurança pública. O racismo não se manifesta de forma explícita, mas através de comportamentos discriminatórios no cotidiano, como nas divisões de tarefas dentro de uma organização, inviabilizando oportunidades de emprego e geração de renda para maior parte da população brasileira, e, em maior evidência, nas abordagens policiais. Segundo relatório das Organização das Nações Unidas, jovem negros são as principais vítimas da violência do país, física e simbólica.

A representante do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir) em Juazeiro, professora e pesquisadora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Márcia Guena, analisa que a maioria dos jovens negros, com ancestralidade africana, tem sido vítimas sistemáticas da violência de agentes públicos, o que pode trazer indicativos de que a população negra ocupa situação de vulnerabilidade e de desrespeitos aos direitos civis. 

Dados do Mapa do Encarceramento, lançado pelas Secretaria-Geral da Presidência da República e Secretaria Nacional de Juventude no ano de 2014, comprovam que jovens negros do sexo masculino, moradores das periferias e áreas metropolitanas dos centros urbanos representam o grupo de maior índice de vulnerabilidade. Segundo informações do DATASUS do Ministério da Saúde dos 56.337 mortos por homicídios em 2012 no Brasil cerca de 27.741 (equivalente a 52,63%) são de jovens, dos quais 77% negros (pretos e pardos) e 93,30% do sexo masculino. Essa população juvenil também representa 54,8% da população carcerária brasileira. A porcentagem pode assinalar aspectos de seletividade do sistema judicial.

Dados do Mapa do Encarceramento

“A violência é um problema social e de saúde pública, pois tem sido exterminado uma parte importante da população brasileira. Portanto, não pode ser tratado apenas no âmbito da segurança. Desde que os nossos antepassados africanos pisaram no continente americano, a luta para se manterem vivos nunca acabou”, ressaltou a professora, que também é diretora do Departamento de Ciências Humanas, da UNEB, campus III, e se dedica a pesquisar as comunidades quilombolas na região.

O critério racial no tipo de abordagem policial não pode ser ignorado, pois tem raízes históricas na forma como a sociedade brasileira se constituiu. Durante o Fórum de Igualdade Racial realizado na cidade em dezembro de 2016, além de discutir as condições da juventude, povos tradicionais, segurança e educação da população negra, representantes do Compir apontaram como ação prioritária o esclarecimento público por parte do Estado da Bahia, com dados e informações, a respeito de questões relacionadas à segurança pública na cidade de Juazeiro. Afinal, quantas pessoas são abordadas anualmente pela Polícia Militar em Juazeiro? De acordo com dados da própria instituição, 11 milhões de pessoas são revistadas anualmente. Se for considerado que a população na Bahia é de 15 milhões de habitantes, isso significa que 11 cidadãos baianos são revistados diariamente de um grupo de 15 pessoas.

Diante do impacto social desse tipo de intervenção do Estado, o Compir solicita que sejam publicados os indicadores de homicídios entre negros e brancos em Juazeiro. Também querem saber o índice de mortes ocorridas em ações da Polícia Militar em serviço no município, assim como os registros de auto de resistência, nos casos de lesão corporal ou morte decorrentes de resistência a ações policiais. Os representantes do Conselho também querem saber o número de processos relacionados aos policiais acusados de uso ilegal da força letal que são levados à justiça. 

Esses questionamentos se devem a situações concretas ocorridas na cidade, como a presenciada pela professora Neide Tomaz.  No carnaval de 2017, em Juazeiro, Neide e seus filhos observaram um agrupamento da polícia retirando um jovem da área interna do cordão de forma violenta. Indignados, solicitaram para que os policiais parassem. Não esperavam que o pedido resultasse em uma agressão. “Meu filho quem tomou o primeiro tapa no rosto e a partir daí o meu marido pediu para que eles parassem. Minha filha apanhou e muito. No chão, eles inclusive a chutaram. Eu fui agredida,” relatou Neide Tomaz, mãe de três jovens estudantes e professora da rede estadual do ensino da Bahia. Ela levou o caso à Corregedoria da Polícia, mas até então não obteve resposta.

O reitor da Universidade do Estado da Bahia, José Bites, que também estava presente da Audiência Pública, destacou que, para consolidar mecanismos que resguardem a população e garanta a instituição da segurança pública no Brasil, é preciso perceber as condições da sociedade brasileira historicamente conservadora e excludente. “Uma sociedade racista e homofóbica é uma sociedade doente. Doença não é só física, é uma questão da nossa convivência solidária, do respeito ao ser humano, de garantir o que tanto falamos, que são os direitos desse cidadão, da sua convivência, das suas relações e do respeito à pessoa enquanto ser humano”.

José Bites reforçou o a importância da atuação das instituições de ensino superior para alterar esse cenário a partir de ações educativas para construir uma sociedade igualitária. “Nós precisamos, enquanto instituição universitária, nos colocar, de uma forma mais consistente, para enfrentar essa questão, contribuindo com a formação dos diversos agentes sociais. A universidade e a educação formal no Brasil, na Bahia, tem essa responsabilidade”, salientou o reitor.

Jovens
Apesar dos jovens também representarem a maioria da população carcerária brasileira, cerca de 58%, os discursos a favor do debate de redução da maioridade penal é mais um indicativo de práticas do racismo institucionalizado. Ainda que o número de adolescentes no sistema socioeducativo tenha evoluído, em 2012, apenas 11% dos adolescentes que cumpriam medida socioeducativa restritiva de liberdade cometeram atos infracionais considerados graves, como homicídio e latrocínio.

A psicóloga, Naiady Miranda, que atende jovens e adolescentes em semiliberdade no Núcleo de Arte e Educação Nego D’ Água (Naenda), afirma que eles são em sua maioria negros, pobres e periféricos, e em 100% dos casos os jovens já sofreram violência policial. “As abordagens são racistas, porque todos são negros e não se tem outra causa para que eles sejam abordados. Eles não têm uma história para contar, eles têm um histórico de abordagem policial”, conta a psicóloga. Os jovens que cumprem a medida socioeducativas e estão em semiliberdade sofrem diversos tipos de violência, além da física, a psicológica. Quase sempre a abordagem se estende para a família. “Quando o adolescente comete um ato infracional, a polícia se acha no direito de entrar na casa dele e revistar tudo”. Para ela, essas violências representam diversos tipos de sofrimento, como revolta, baixa autoestima, falta de esperança, e a naturalização.

Um depoimento gravado em vídeo por um desses adolescentes, que recebeu assistência do núcleo, evidencia toda essa condição que o racismo condiciona: “Eu vou ver se eu aprendo mais alguma coisa que é pra eu me comportar direito, eu penso em ajudar minha família, trabalhar com meu pai, não roubar nada de ninguém. Se for pra comprar alguma coisa eu compro com o meu dinheiro que é pra polícia nenhuma tá me difamando ou me chamando de ladrão, que eu quero ser homem honesto, nada de ladrão. Tens uns povo que o cara passa e fica, ó os ladrãozinho mas eu creio que o meu nome vai mudar, vai me chamar de homem trabalhador, aí é um homem honesto”.

Para evitar que esse tipo de prática de violência física e psicológica continue a ocorrer na sociedade brasileira, os parlamentares da Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública da Assembleia Legislativa vão protocolar junto ao Comando Geral da Polícia Militar a Corregedoria as denúncias de agressão e os questionamentos da população na tentativa de reverter esse quadro de exclusão social. Também foi sugerido a implantação de um serviço de atendimento SOS Racismo a ser realizado pela Prefeitura Municipal para atendimento às pessoas vítimas de violência. 

“A audiência foi muito produtiva e vamos fazer os encaminhamentos à corregedoria e ao comando da polícia militar para que as denúncias sejam apuradas e aqueles policiais que cometeram abusos sejam punidos. A abordagem tem que ser civilizada, não pode ser violenta, porque a polícia tem que respeitar e garantir os direitos do cidadão independentemente de cor, raça, sexo ou crença”, afirmou o deputado Marcelino Galo, presidente da Comissão. É o que desejam todos os presentes na Audiência Pública que ouviram os relatos de vítimas de violência policial em Juazeiro.

Confira mais fotos da audiência pública

 


Inscrições abertas para palestra sobre jornalismo científico


Estão abertas as inscrições para a segunda edição do Ciclo de Palestras, organizado pelo Multiciência - Agência de Notícias da Uneb. O evento acontece nos próximos dias 10 e 11 de maio, às 18h, no Auditório Multimídia do DCH III da Universidade, em Juazeiro. A palestra tem como tema "Desafios do Jornalismo Científico: da apuração à divulgação" e será ministrada por Nádia Conceição, jornalista e editora da Agência Ciência e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Para participar, estudantes e profissionais da área devem enviar sua inscrição para o e-mail agenciamulticiencia@gmail.com, informando nome, contato telefônico, e-mail, instituição e profissão. As inscrições seguem até o dia 09 de maio.

Palestrante

Nádia dos Santos da Conceição é doutoranda do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (IHAC) e integrante dos Grupos de pesquisas CULT e Cultura e Ciência.  Atua nas áreas de comunicação, jornalismo científico, ambiental, cultura popular e políticas culturais, política e cultura.


Acidente Vascular Cerebral: um problema de saúde pública

Após um dia muito agitado, Marilucia Carvalho Ribeiro dos Santos chegou em casa, tomou banho e sentiu uma dormência na ponta dos dedos que subia pela perna até o braço, no lado direito. Sentiu também o corpo ser puxado para baixo. A filha, Samara Carvalho Ribeiro de Aguiar, conta que recebeu um telefonema de suas primas relatando o que estava acontecendo e voltou para casa. “Minha mãe passou três dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em um hospital particular de Juazeiro. Após receber alta, ficou de cama por 15 dias, e voltou a andar após esse tempo com dificuldades”. Os exames diagnosticaram que, durante 30 minutos, houve um sangramento do lado esquerdo do cérebro de Marilucia. Ela estava sofrendo um Acidente Vascular Cerebral (AVC) do tipo hemorrágico, popularmente conhecido como derrame.

“Eu tinha problemas de pressão, mas não me cuidava. Um dia antes de sofrer o AVC comi um pacote de salgadinho grande”, relata. Marilucia foi medicada e não precisou passar por cirurgia. Samara relata que sua mãe chorava muito no início. “O médico acredita que o derrame afetou o lado emocional dela. Antes, ela não era assim”. Onze anos depois do tratamento que durou cinco anos, com fisioterapia e acupuntura, Marilucia toma remédios para controlar a pressão e ainda sofre com algumas sequelas do AVC. “Eu caminho, faço as coisas, mas ainda sinto um peso e dormência no corpo. Tem dias que meu braço fica muito duro e tenho dificuldades para movimentar a mão”. Depois de ter sofrido o derrame, ela pediu aposentadoria do trabalho, por não ter condições de voltar a fazer as atividades como antes.

Obesidade, diabetes, hipertensão e uma vida sedentária são algumas das principais causas que levam ao AVC. Nos últimos anos, a doença tem se tornado um problema de saúde pública devido aos dados alarmantes. Atualmente, atinge 16 milhões de pessoas por ano em todo o mundo, nas mais diversas faixas etárias. No Brasil, são registradas aproximadamente 68 mil mortes anualmente, de acordo com o Portal Brasil.

O clínico geral Malan Silva de Brito, que atua no serviço de saúde pública de Juazeiro, na Bahia, explica que essa doença pode atingir pessoas de todas as idades, mas que os idosos estão mais propensos a sofrer o derrame. “A maior parte dos idosos, que sofrem ou sofreram com o AVC, apresentava pressão alta, diabetes ou o organismo já estava um pouco mais debilitado, por causa da idade, mas essa doença pode ser registrada em qualquer parte da vida de uma pessoa,” esclarece o médico.


Foto de Robson Gomes


Prevenção

Apesar de ser mais recorrente em idosos, jovens também estão propensos a ter um acidente vascular cerebral. Essa possibilidade é recorrente principalmente em pessoas que tenham doenças cardíacas, hematológicas e autoimunes. O consumo de drogas lícitas e ilícitas é um fator que pode predispor o jovem a um derrame. Em crianças, é recorrente em casos clínicos de anemia falciforme, com problema de formação em um vaso sanguíneo ou que teve rompimento desse vaso.

Segundo o neurocirurgião do Hospital Universitário da Universidade Federal do Vale do São Francisco, Ricardo Brandão, existem dois tipos de derrame: o isquêmico e o hemorrágico. “O primeiro é mais comum, corresponde a, praticamente, 80% do Acidentes. Isquemia é uma privação de sangue em determinada região, ou seja, o AVC é o entupimento de um vaso no cérebro que acarreta os primeiros sintomas. Já o hemorrágico, como o próprio nome já diz, é uma hemorragia cerebral causada pelo rompimento de um vaso”, afirma.


Foto de Gislaine Milca

O tratamento do AVC isquêmico é feito com o uso de fibrinolíticos, que são medicamentos que tendem a diminuir a obstrução dos vasos, quando hemorrágico o tratamento é cirúrgico. Quando há sequelas o paciente precisa passar por mais tratamentos como a fisioterapia e até mesmo um fonoaudiólogo caso tenha problemas para mastigar por exemplo". 

A prevenção primária pode ser feita para modificar os fatores de risco através da prática de exercícios, evitar a ingestão de gorduras e fazer exames frequentes para medir as taxas de hipertensão. Além disso, é necessário realizar um atendimento de atenção básica, dispor de serviços estruturados e com profissionais capacitados para realizar prevenções secundárias.

Reportagem de Ingryd Hayara e Robson Gomes, repórteres da Agência MultiCiência

Educadores discutem impactos da reforma do ensino médio

A reforma do ensino médio tem motivado discussão entre educadores, pais e alunos da rede de ensino. A Medida Provisória 746/2006, apresentada no dia 22 de setembro do ano passado, estabelece alterações na estrutura do ensino médio, amplia a carga horária mínima para 1.400 horas e restringe a obrigatoriedade do ensino de artes e da educação física à educação infantil e fundamental, além de tornar optativo o conteúdo de disciplinas como sociologia e filosofia.

No dia 16 de fevereiro deste ano, o presidente Michel Temer sancionou a medida, que tem força de lei desde a publicação no Diário Oficial. A secretária executiva do Ministério da Educação, Maria Helena Guimarães, afirma que a discussão sobre a reforma do ensino médio já ocorre há 40 anos e pretende resolver problemas como indisciplina e evasão escolar nas escolas públicas.

Porém, para pesquisadores da área de educação das cidades de Juazeiro e Petrolina a solução encontrada pelo governo foi equivocada, já que, em quatro meses, o governo “resolveu” o assunto, sem consultar professores, especialistas, pais ou alunos. A aplicação do novo modelo depende da definição da Base Nacional Comum Curricular (BNCC),  a ser implantada no próximo ano.

Para o Doutor em Educação e professor de pedagogia da UNEB, Josemar Martins, a reforma foi apresentada em um momento político conturbado que acabou impossibilitando a recepção, interpretação e o debate sobre o que realmente estava para acontecer. “A forma como o texto foi apresentado, dentro de um governo ilegítimo, de uma situação de golpe, em forma de medida provisória fez com que a reforma fosse confundida com várias outras coisas, como mudanças na Lei de Diretrizes de Base (LDB). O próprio texto da reforma não está explicitando um conjunto de coisas,” afirma o professor Pinzoh, como é mais conhecido.

Com as mudanças, apenas português, matemática e inglês, que passa a ser oficialmente o segundo idioma ensinado nas escolas, serão obrigatórios. Hoje, são 13 disciplinas obrigatórias. Artes, educação física, sociologia e filosofia serão componentes optativos. Para completar a grade curricular, os alunos escolherão entre os cinco eixo propostos, de acordo com suas aptidões, como: Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Matemática e Formação Técnico e Profissional. Fica a critério do colégio definir o eixo a ser ofertado.

Professor Josemar Martins (Pinzoh)
Técnica x Humanista

A questão que está em jogo é em relação a formação técnica e a humanista a ser oferecida aos alunos e em quais condições. Segundo Pinzoh, esse debate a respeito de formação mais empírica é antigo, mas a problemática atual é o questionamento a respeito de uma espécie de enxugamento no padrão de formação do estudante e a reiteração de status quo, com a manutenção de diferenças sociais na oferta do ensino. “Os filhos dos trabalhadores receberão uma educação mais rápida e serão direcionados enquanto mão de obra para o mercado de trabalho. Já os filhos das classes mais abastadas receberão um ensino mais aberto, hermenêutico, para que possam pleitear a universidade, mantendo, assim, a elite dirigente dos intelectuais, formadores de opinião e pessoas que possuem postos mais significativos na estrutura da economia brasileira,” afirma.

Para Fábio Guimarães Campos, professor de sociologia do Centro de Educação Profissional do Sertão do São Francisco (CETEP) em Juazeiro a reforma tem lados negativos e positivos, porém utópicos. O professor afirma que é muito difícil para um jovem de 14, 15 anos, idade média de entrada no ensino médio, decidir qual área quer estudar e atuar futuramente, mesmo porque ele ainda não teve experiências com todas as áreas para ser capaz de decidir com qual tem aptidão. “Poder escolher, na teoria, é uma coisa boa, porém um jovem não está preparado. A escolha do vestibular já é prematura, e pior agora, em que se tem que escolher ainda mais cedo,” afirma Fábio.

Para o professor, a priorização dos cinco eixos pode criar distorções entre escolas. A depender da infraestrutura da escola do bairro, o aluno pode não ter o eixo que ele queira cursar. Por uma questão de segurança ou recursos financeiros, ele pode não ir para um outro colégio, então o estudante acaba sendo forçado a cursar algo que não gosta. Além disso, a reforma vai diminuir o conhecimento de mundo do aluno, pois vai direcionar o olhar dele apenas para o mercado profissional, dificultando a perspectiva de construção de um sujeito integral que tem múltiplas potencialidades e possibilidades, com uma vida pessoal além do trabalho.

A previsão é que a reforma traga um ensino técnico e tecnológico, em que o aluno possa dominar a tecnologia e o conhecimento amplo da sociedade. Mas isso não acontece, nem mesmo nos Institutos Federais (IFs). O espaço de diálogo e abrangência de conhecimento ultimamente está limitado às universidades, mas, com a reforma, as universidades estarão menos acessíveis, e consequentemente, esse espaço de discussão do mundo também.

“Acredito que a reforma acabe enfraquecendo esse ensino propedêutico, mais do que já está. A reforma vai formar pessoas que só pensarão em trabalho, mas que não terão conhecimento tecnológico. Então, vai acabar distanciando as classes populares das classes mais abastadas. Com a reforma, a universidade vai formar os engenheiros de cada área. Já as escolas técnicas os trabalhadores braçais,” declara o professor.

Professor Fábio Guimarães Campos
A tentativa de retirar disciplinas estratégicas lembra o que aconteceu durante a ditadura militar, quando componentes como história, filosofia e sociologia foram substituídas por educação moral e cívica, disciplina pensada para sustentar os valores da ditadura. “Esse governo acaba sendo uma expressão do passado. A retirada dessas disciplinas é estratégica porque discutir artes é fundamental para um conhecimento abstrato das relações com o próximo e com o mundo. A atividade física aprimora o cérebro pra poder abstrair, entender, assimilar mais fácil o conteúdo teórico, e além disso você tem filosofia e sociologia que ajudam a pensar os problemas da sociedade como um todo, analisando-os e criticando-os”, afirma Fábio.

Além dos impactos no conteúdo a ser ensinado em sala de aula, os professores reafirmam a existência de um cenário desfavorável para a área da educação, com o aumento da carga horária dos professores, desvalorização ainda maior dos cursos de formação e licenciaturas e um cenário de desvalorização dos docentes, pois poderá ser implantada a reforma da previdência, com o fim da aposentadoria específica para os professores (25 anos para mulheres, 30 anos para homens).

Para discutir essas temáticas, a Agência MultiCiência vai publicar reportagens sobre os impactos da reforma no cotidiano escolar, como a formação dos professores, propostas pedagógicas e a exclusão de expressões como "identidade de gênero"e "orientação sexual" que foram retirados do texto da Base Nacional Comum Curricular.

Entenda o que muda com a reforma do ensino médio





Texto de Mônica Odilia, estudante de Jornalismo em Multimeios